A FRELIMO comemerou no dia 25 de Junho de 2012, 50 anos da sua existência. Esta data também coincidiu com os 37 anos da independência de Moçambique.
A história oficial do partido no poder em Moçambique, a FRELIMO, que compreende o período entre a sua fundação em 1962 até à proclamação da independência do país em 1975, foi até recentemente narrada, à pinça, em manuais escolares por historiadores escolhidos a dedo pelo no partido. O relato que as crianças e adultos moçambicanos estudam nas escolas e universidades do país conta que o primeiro presidente do partido, Eduardo Mondlane, morreu assassinado num atentado à bomba na sede do movimento, em Dar es Salaam, a 03 de Fevereiro de 1969.
Nos livros escritos ainda no tempo em que a FRELIMO era o único partido autorizado a exercer actividade política em Moçambique, Eduardo Mondlane surge como o arquiteto da unidade nacional e fundador da frente contra o colonialismo português.
Nessa história, o rasto de Uria Simango, que os estatutos da FRELIMO punham como sucessor de Eduardo Mondlane na presidência da FRELIMO, perde-se na descrição de traidor, não se lendo mais nada sobre o seu paradeiro.
A narração faz uma vaga reconstituição das circunstâncias em que o chefe militar da guerrilha da FRELIMO, Samora Machel, e o responsável pelas relações exteriores do movimento, Marcelino dos Santos, são apontados para formar uma presidência colegial com Uria Simango, contrariando-se o documento fundador do movimento, que dava a direcção do partido ao último, na qualidade de vice-presidente.
Os líderes da UDENAMO, da UNAMI e da MANU, os três movimentos que se fundiram para a criação da FRELIMO merecem nos livros de História de Moçambique uma referência marginal e até mesmo depreciativa.
Nessas obras, Alberto Chipande, mais tarde ministro da Defesa de Moçambique pós-independência, deu o primeiro tiro do início da guerra da FRELIMO contra o colonialismo português, em Chai, algures na província de Cabo Delgado, no dia 25 de setembro de 1964, tendo matado na ocasião o chefe português do posto local.
Mas afinal parece que não é bem como vinha sendo contado até há bem pouco tempo. A essa viragem não é alheia a abertura política que o país conhece desde 1990, quando é aprovada a primeira Constituição multipartidária, com cláusulas sobre a liberdade de imprensa.
O aparecimento de vários órgãos de comunicação social a partir dos anos de 1990 dissociados da orientação oficial determinada pela FRELIMO dá voz a vários dissidentes do partido e historiadores não alinhados com o partido da situação.
As revelações que emergem dessa nova vaga de depoimentos fazem tremer o mito de que Eduardo Mondlane foi o arquitecto da unidade nacional e fundou a FRELIMO.
Bem antes de Eduardo Mondlane ser eleito presidente da frente, os líderes dos três movimentos acima mencionados já tinham esboçado um projeto de unidade, com o nome e estatutos informalmente aprovados.
Que afinal Eduardo Mondlane não morreu nos escritórios do movimento, mas numa esplanada de praia de uma amiga americana de nome Betty King, na ausência da sua mulher, também americana, Janet Mondlane, em Oyster Bay, uma das zonas de luxo de Dar es Salaam.
Essas afirmações feitas por figuras que se incompatibilizaram com o partido e partiram para o exílio por temer pela sua vida já foram confirmadas por membros do próprio partido, incluindo por Joaquim Chissano, presidente da FRELIMO e de Moçambique entre 1986 e 2005. A “nova” história da FRELIMO dá Uria Simango como vítima de uma conspiração urdida com o objetivo de travar a ascensão de uma pessoa do centro de Moçambique para favorecer Samora Machel, do sul, e não como “traidor”.
Mais recentemente, um quadro sénior do partido, Mariano Matsinha, confirmou que Uria Simango foi afastado da liderança do partido por ser um líder fraco para as circunstâncias da altura e não por ser traidor. Ele era um reverendo, pacifista para um período de maior confrontação militar e animosidade interna como o que a FRELIMO estava enfrentar quando Eduardo Mondlane foi assassinado em 1969.
Mais uma pedrada no charco em que estagnava a verdade monolítica da história contada pela “linha correcta” do partido libertador: Alberto Chipande não matou ninguém quando disparou o primeiro tiro, muito menos o chefe do posto português, porque este não se encontrava no local, pois se deslocara em trabalho à Porto Amélia, actual cidade de Pemba.
Lançam-se dúvidas em relação ao início da guerra no dia 25 de setembro, pois apesar de essa data ter sido oficialmente escolhida para o arranque das hostilidades, a descoberta pela tropa colonial das movimentações de guerrilheiros da FRELIMO terá precipitado o início da luta.
Isto foi dito por um general do partido, Bonifácio Gruveta, que faleceu recentemente e não foi desmentido pelo alegado autor do primeiro tiro. Para assinalar o 50º aniversário da sua fundação, o partido no poder promoveu um simpósio, em que membros fundadores da FRELIMO reconhecem o papel fulcral de Eduardo Mondlane na criação da frente, mas fornecem elementos que arrefecem a euforia com que este é apresentado como o principal protagonista da criação da frente anti-colonial.
Nesse mesmo simpósio, foi dito, inclusive por Joaquim Chissano, que na verdade Eduardo Mondlane concorreu à presidência da FRELIMO como membro da UDENAMO, desmantelando-se assim a teoria de que ele foi sempre suprapartidário e acima do faccionismo que dominou os militantes anti-coloniais antes da unificação do movimento.
A torrente de novas revelações sobre o partido no poder em Moçambique parece ter atingido uma espiral tal que já não parece possível travar a marcha rumo ao conhecimento do túnel secreto em que o passado da FRELIMO se encontra trancado.
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